OS GOIANOS: DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS E DAS TELAS CERRATENSES

Oficina Poética

Postado por Elizabeth Caldeira Brito em 9 de Janeiro de 2016 às 22h23
Bernardo Élis – o único goiano a integrar a Academia Brasileira de Letras, foi poeta, professor, advogado, contista e romancista. Publicou seis obras. Seu livro “O tronco” foi levado às telas cinematográficas. Recebeu vários prêmios literários, dentre eles o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, pelo seu “Caminhos e descaminhos”. Contista, consagrado, sua obra integrou a clássica “Antologia do Conto Brasileiro” Contemporâneo, do renomado crítico Alfredo Bosi. Presidiu a, então, Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira, na gestão do governador Maguito Vilela. O livro “Veranico de Janeiro” (1966) foi escolhido, um dos 20 melhores livros goianos do século XX.Seus restos mortais repousam no mausoléu da ABL. Quiçá possam jazer, para a eternidade, em terras goianas.

Antonísio Siqueira Borges
  
Artista plástico desde 1970, Antonísio Siqueira é autodidata. Bacharelou-se em Teologia e formou-se em Gestão Cultural pela UnB. Participou de três cursos de Curadoria de Arte: no Programa de Educação Continuada, no Centro de Desarrollo de Artes Visuales de la Haban, Cuba, e no Museu de Artes de Goiânia. Foi Vereador e Secretário Municipal do Meio Ambiente por Edéia-GO, gestões 1993/96 e 1997/98, respectivamente. Atualmente é Diretor Administrativo e Financeiro da Secretaria Municipal de Cultura de Goiânia. Participou das exposições: “Primavera – Cerrado em tela”, no Espaço Cultural Goiânia Ouro e “Visões Coletivas – Manifestações da Arte Infantil”, na Assembleia Legislativa e “Goiânia Mostra Sua Arte”, no centro cultural Octo Marques,  dentre outras.

Poemas de Bernardo Élis Fleury de Campos Curado (Corumbá de Goiás -15/11/1915 ; 30/11/1997 – Corumbá de Goiás).
Telas, que retratam o cerrado goiano,de Antonísio Siqueira Borges (Ceres-GO).

Quentura de noite pejada de nuvens baixas e negras.
Bambos bamboleios de trovão soturno
batendo o tímpano bambo da zabumba do horizonte.

Trovão apagado,
saudoso,
distante.
Depois a chuva em grossos pingos
sobre os telhados,
na poeira ressequida das estradas,
na terra requeimada das queimadas,
desprendendo um cheiro forte de gestação.

(Mamãe molhava algodão em cachaça canforada
e nos dava para cheirar:
– cuidado com defluxo!)

Amanhã tudo vai começar de novo:
as folhas voltarão aos galhos secos,
as águas resmungarão nas grotas mortas,
os pássaros do céu hão de cantar no cio…

(E aquela que partiu porque não volta?)

Lá fora uma goteira numa lata pinga,
pinga a pingo,
pengue,
pengue,
numa toada monótona de preta que ninasse.
Pengue,
pengue,
pingo a pingo.
(E aquela que partiu?
porque não volta?).


TARDE DE NOVENA
Ingenuidade macia das tardes de novena,
com os sinos dos Passos batendo,
pausado, molengo,
sobre o poente que pegou fogo.

Fervores honestos gemendo
sobre o poente que se alarga e se estende,
congesto,
pela noite adentro,
pondo rubras palpitações
nas trevas do ocidente,
– grandes borboletas de fogo
espanejando cegas sobre as essas.

FEMININA DO BECO
As mulheres do beco
vivem às claras,
de portas escancaradas.

Entram homens,
saem homens:
uns fumando, de chapéu,
outros calmos, assobiando.

Às vezes há gritos,
mortes, raramente.

Mas um são-caetano,
maliciosamente,
pula o muro.

A chuva há de cobrir friamente de branco os morros longes,
feito um fantasma bondoso.
E depois há de vir numa carícia gelada afagar a cidade
quieta, num gesto apagado de mão defunta.

E molhará de silêncio a calçada das ruas tortas.
E molhará o recolhimento místico das grandes árvores.
E baterá mansamente a vidraça de meu quarto,
numa irresolução medrosa de amante que prometeu não vir.

Depois,
Sob a poeira da chuva fina,
fria,
indiferente,
teimosa,
ficará o vazio do meu coração
a saudade nebulosamente imprecisa de seu corpo que eu
nunca possuí.
As árvores lá fora estão pingando.
Porque a amada entrasse num automóvel
e o automóvel saísse rolando,
um terremoto imperceptível e sereno arrasou a cidade,
as casas, os jardins, os céus, e os pássaros
continuaram voando mas mortos.
E o homem cuja amada viajou
encontrou-se numa cidade que nunca vira antes,
cheia de gentes estranhas,
mas que o conheciam e queriam conversar,
discutir, falar de guerra e de negócios impossíveis.
Havia um calo ruim
machucando a alma do homem: Não chore meu filho que
[a vida é lutar contra as conversas entojadas”.
Então ele subiu à torre da igreja da Trindade
que também se chama santuário do divino padre eterno da Trindade
e ouviu a voz de um anjo lhe dizendo assim
“daqui dois homens atiraram-se lá embaixo:
um morreu – orai por ele,
o outro pede esmola”.
O homem deu uma gorjeta ao anjo
e não quis jogar com probabilidades.
Lembrou que existia álcool, éter, melhoral,
estriquinina, cocaína e outros venenos lentos e violentos.
Mas tirou seu retrato na porta da igreja
e pregou na sala dos milagres.

O HOMEM QUE FAZIA ANOS NO DIA 7 DE SETEMBRO
No dia de meus anos
a bandinha saía pra rua de madrugada,
tocando matinas.
A gente acordava com o estrondo dos foguetes,
espantando os morigerados pombos da torre da igreja.
Botavam bandeira na Prefeitura,
no Correio,
na Cadeia,
havia discurso, passeatas etcétera,
“tudo por sua causa! – dizia meu pai.
E eu ficava intrigadíssimo
porque ninguém mais era igualmente festejado.

Hoje, como conheço a história do Brasil,
mudei a data de meus anos,
que é o dia mais triste do mundo.


A página Oficina Poética, criada e organizada pela escritora, acadêmica Elizabeth Abreu Caldeira Brito, é publicada aos domingos no Diário da Manhã.Esta é a 202ª edição (desde 08/01/2012). bethcbrito@gmail.com