Ruídos


                                                                                           
                                                   *Lúcia Mendonça de Andrade

Ouço barulhos, barulhos, ouço.
A sangria feita pelo fogo,
Desnudou a terra que agora é cinza.
O lagarto Teiú está sisudo,
Olhou-me com desprezo,
Senti arrepios mediante sua dor.
Sei que a fome se alastra
Como peste a castigar inocentes
Seres da Terra, seres divinos,
A pagar pelos pecados dos humanos
Esses sem adjetivos, desalmados...
Ouço barulhos, barulhos, ouço.
Folhas secas e pó de cinzas,
Cupinzeiros nus, inóspitos, quentes.
Cobras famintas se arrastam lentas,
Tudo faz um barulhão sem fim.
É o lamento triste da Natureza-mãe.
Meus ouvidos solidários
Enchem-se de angústia,
Aperta-me o coração,
Há um nó em minha garganta.
A chuva sumiu, há tempos protesta.
Os ribeiros rasos deslizam magoados.
E a humanidade desprovida de bom-senso
Continua a degradar o solo em que pisa,
Marchando unânime rumo à própria morte.
A cova funda da ganância, do descaso,
Há de mastigá-la com dentes vorazes.
Ouço barulhos ao longe,
São as gentalhas chegando,
Se matando por um pedaço de pão,
Por um copo de água fria.


Lúcia Mendonça de Andrade.

Escritora, poetisa, artista plástica.
Integrante da União Brasileira de Escritores -UBE-GO
E Academia Jaraguense de Artes e Letras
Pirenópolis  07- 06 - 2011.